A política pública de Marina Silva

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por Felipe Neves

Estreio esta coluna já dizendo que discordo frontalmente dos indivíduos que vivem em território nacional e ousam dizer que este país não é bom de política pública. Detesto desapontá-los, mas a excelência desta prática está aqui.

 Ou nunca se deram conta daquela que enfeita as ruas de santinhos a cada duas primaveras? Ou daquela que faz surgir nos portões e postes os bons e velhos cartazes de vereadores? Ou ainda daquela que veste os corpos mais diversos com camisetas de deputados estaduais, unificando as tendências da moda tropical?

Essa é a melhor política pública que temos. Dos políticos. Para o público.

 Diferentemente de qualquer outra no Brasil, começa cedo. Logo que parece acabar, vai aos poucos se montando novamente na cabeça do brasileiro e, no ano eleitoral, se intensifica na velocidade com que se faz uma ponte superfaturada.

 Este 2013, por sinal, já chega à metade carregado de política pública. Não faltam declarações e versões sobre quem estará na corrida ao Planalto Central após o esvaziamento dos estádios da Copa.

 Meio cheio de especulações e meio vazio de fatos concretos, que vão desde um “volta Lula” até um “Joaquim Barbosa lá”, o fato é que neste ano um certo nome vai garantindo seu lugar pelas beiradas. E não estamos falando do mineiro-tucano Aécio que empresta meu sobrenome.

 Maria Osmarina Marina Silva Vaz de Lima já vem sendo pedra nos sapatos italianos de muita gente há tempos.

 Com uma carreira política singular, que passou por uma alfabetização tardia até a chegada ao Senado e ao Ministério do Meio Ambiente, ela é reconhecida mundialmente como uma liderança no movimento verde, sendo aluna assídua da escola prática de ambientalismo do seringueiro e sindicalista Chico Mendes, assassinado em 1988 por fazendeiros no Acre.

Em 2010, ela melou os sonhos do eterno José Serra de vestir uma faixa verde-amarela e desfilar de pé num Rolls-Royce. Levantou ainda os cabelos dos antigos parceiros de PT que, imersos na lama mensaleira, precisavam sustentar Dilma Rousseff como um novo nome. Angariou, na ocasião, nada menos do que 20 milhões de votos em seu primeiro pleito. E corre para incomodar mais uma vez.

 Com a popularidade da presidenta tentando subir a ladeira depois das manifestações de junho e o projeto amarelo-hepatite de candidatura do PSDB ficando em terceiro plano, Marina já apareceu como uma presença quase certa no segundo turno das próximas eleições na maioria das pesquisas.

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 Ilustração: Rodrigo Rosa / Rolling Stone Brasil

 

Longe, contudo, de estar com essa bola toda, ela terá que engolir mais ervas amargas do que uvas daqui para frente, mesmo que vença.

 Tudo porque enfrentará desafios para todos os gostos, em todos os sentidos.

 A começar pelo esforço homérico que precisará fazer para conquistar, com seu discurso renovador, as massas historicamente petistas das periferias dos grandes centros. Sem esquecer que, devido à enorme quantidade de migrantes nordestinos vivendo nas metrópoles do Sudeste e que estão em contato constante com suas famílias, a tarefa de colocar o “papo de elite” em circulação, transformando-o em votos, será dobrada.

 Seu partido, a Rede Sustentabilidade, mobiliza colaboradores mais ágeis do que os antigos office-boys do centro de São Paulo para levantar e oficializar as 500.000 assinaturas necessárias para nascer. Os relógios dos cartórios, mais adiantados, prometem não perdoar atrasos.

 Para somar, ela sofre ataques por ser integrante da Assembleia de Deus, uma das mais antigas e conservadoras instituições protestantes do Brasil. Mas separa Igreja de Estado. Como boa evangélica, foge de saias justas. Principalmente quando o assunto é homossexualidade. Contudo, foi interpretada pela mídia como uma defensora de Marco Feliciano, o que nega.

 Por fim, o maior desafio de Marina Silva, se eleita, será enfrentar a máquina pública instalada em Brasília, inchada pela elefantíase gananciosa dos partidos, que querem sempre seu lugar à sombra. Nesse contexto, ela pode, mantendo seu pulso, se isolar. Ou misturar seu projeto de renovação com as estruturas arcaicas que ainda insistem em ruir.  Ou ainda escrever seu nome na história como um sinônimo de transformação.

Nesse caminho de incógnitas, cabe a ela decidir qual política seguir. E qual público escolher.

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